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Figura de especialista para efeito de integração em corpo docente e lecionação nos ciclos de estudos conducentes a grau de licenciatura em terapêuticas não convencionais

O Bloco de Esquerda tem acompanhado desde sempre a regulamentação das terapêuticas não convencionais (TNC), um processo que apesar de todos os atrasos e vicissitudes que tem sofrido, continua a ser da maior importância para profissionais e, acima de tudo, para utilizadores destas terapêuticas.

Estamos a falar de profissões da área da saúde e, por isso, devem ser regulamentadas no sentido de garantir que todos os profissionais exercem a sua atividade com a formação e conhecimento adequado, garantindo ao mesmo tempo que as atividades são desenvolvidas em condições que garantem a total segurança do utilizador das terapêuticas não convencionais.

É nesse sentido que aponta o enquadramento base das terapêuticas não convencionais definido pela Lei n.º 45/2003, de 22 de agosto, quando no seu artigo 4.º estabelece, entre outros princípios orientadores, “a defesa dos utilizadores, que exige que as terapêuticas não convencionais sejam exercidas com um elevado grau de responsabilidade, diligência e competência, assentando na qualificação profissional de quem as exerce e na respectiva certificação”. A mesma lei estabelece, no seu artigo 10.º, sobre o exercício da atividade, que “a prática de terapêuticas não convencionais só pode ser exercida, nos termos desta lei, pelos profissionais detentores das habilitações legalmente exigidas e devidamente credenciados para o seu exercício”.

Dez anos mais tarde, a Lei n.º 71/2013, de 2 de setembro, veio regulamentar a Lei n.º 45/2003, de 22 de agosto, relativamente ao exercício profissional das atividades de aplicação de terapêuticas não convencionais.

Esta Lei diz-nos que o acesso às profissões terapêuticas não convencionais de acupuntura, fitoterapia, homeopatia, medicina tradicional chinesa, naturopatia, osteopatia e quiropráxia só é permitido mediante titularidade do grau de licenciado numa destas áreas e obtido na sequência de um ciclo de estudos compatível com os requisitos fixados em portaria fixada pelo Governo.

Diz-nos ainda que o exercício destas profissões só é “permitido aos detentores de cédula profissional emitida pela Administração Central do Sistema de Saúde, I. P.” e que essa emissão de cédula profissional “está condicionada à titularidade de diploma adequado”.

Prevê-se, no entanto, na disposição transitória - e porque não existiam ainda em funcionamento ciclos de estudos conducentes ao grau de licenciados nas diversas áreas das terapêuticas não convencionais reconhecidas por lei –, que os profissionais que à data da entrada em vigor da Lei já estivessem a exercer pudessem submeter à ACSS documentos comprovativos da sua experiência profissional e da sua qualificação e formação e que a ACSS, mediante apreciação curricular documentada, pudesse proceder à atribuição de cédula profissional.

Percebe-se que a implementação e funcionamento de ciclos de estudos é uma peça fundamental para concluir a regulamentação das terapêuticas não convencionais em Portugal e, com isso, concluir um processo que garante maior qualificação profissional e maior segurança para os utilizadores. No entanto, este processo de implementação de ciclos de estudos conducentes ao grau de licenciatura nas áreas da acupuntura, fitoterapia, homeopatia, medicina tradicional chinesa, naturopatia, osteopatia e quiropráxia tem conhecido as maiores dificuldades.

É do conhecimento do Bloco de Esquerda que têm sido submetidas muitas candidaturas junto da A3ES para aprovação de ciclos de estudos no âmbito da Lei n.º 71/2013, de 2 de setembro. No entanto, a maior parte destas candidaturas tem sido chumbadas. O motivo invocado repete-se e remete para a “falta de um corpo docente especializado nas áreas em questão”.

Ora, tratando-se de áreas de formação que agora estão a iniciar-se é compreensível que não exista um quadro docente que preencha os rácios de mestres e doutores/as preconizados. Mas é certamente possível encontrar uma solução que não passe pela rejeição liminar das propostas apresentadas. Existe experiência em Portugal no que concerne ao acompanhamento e implementação de cursos superiores em áreas onde não existiam docentes doutorados/as ou mestres na área (enfermagem, ciências da saúde, podologia, entre tantas outras) e sempre foi possível encontrar propostas de transição que permitissem criar quadros, formar profissionais e implementar estes cursos de formação.

O que não é possível é o paradoxo que se vive atualmente: há uma Lei da Assembleia da República, a Lei n.º 71/2013, de 2 de setembro, aprovada sem quaisquer votos contra, que não consegue entrar efetivamente em vigor por via da interpretação que está a ser efetuada pela A3ES desta mesma Lei.

Perante isto e no sentido de debelar este paradoxo e de ajudar à conclusão da necessária regulamentação da lei, o Bloco de Esquerda apresentou já uma iniciativa legislativa que recomendava ao Governo o acompanhamento do “processo de implementação da Lei n.º 71/2013, de 2 de setembro, de modo a garantir a sua efetivação, colaborando no sentido de encontrar uma solução que permita desbloquear o impasse atualmente existente no que concerne à formação”, recomendando ainda a clarificação sobre uma possível “solução de transição que permita o funcionamento de cursos no âmbito da Lei n.º 71/2013, de 2 de setembro, até que haja o adequado número de mestres e doutores/as”.

Esta iniciativa foi aprovada no dia 30 de setembro de 2016, tendo os votos contra apenas do PSD e a abstenção do CDS. No entanto, e como o impasse continua, o Bloco de Esquerda apresenta agora uma nova iniciativa legislativa onde avança com uma solução transitória que permite desbloquear o problema e permite a abertura de ciclos de estudo conducentes a licenciatura nas áreas das TNC reconhecidas por lei e permite.

Esta solução permite desbloquear o impasse atualmente existente, reconhecendo a autonomia técnica e deontológica destas práticas (tal como previsto no artigo 3º desta Lei) e garantindo a possibilidade de formação de novos profissionais, sendo para tal necessário que haja cursos reconhecidos pela A3ES.

O Decreto-Lei n.º 115/2013, de 7 de agosto, que altera o regime jurídico dos graus académicos e diplomas do ensino superior, criou a figura do “especialista de reconhecida experiência e competência profissional”, especialista este que compõe o corpo docente que assegura a lecionação do ciclo de estudo.

O especialista de reconhecida experiência e competência profissional é “aquele que exerce ou tenha exercido profissão na área em que leciona ou se propõe lecionar e que satisfaça uma das seguintes condições: i) ser detentor do título de especialista nos termos do Disposto do Decreto-Lei n.º 206/2009, de 31 de agosto; ii) ser detentor de um grau académico e possuir, no mínimo, 10 anos de experiência profissional com exercício efetivo durante, pelo menos, cinco anos nos últimos 10, e um currículo profissional de qualidade e relevância comprovadas, devidamente confirmado e aceite pelo órgão científico ou técnico-científico do estabelecimento de ensino superior; iii) ser considerado como tal pela Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior no âmbito do processo de acreditação de ciclos de estudos, mesmo não cumprindo todos os requisitos definidos na subalínea anterior”.

O que importa reter aqui é que atualmente, e principalmente no ensino politécnico (onde se inserem os ciclos de estudos conducente a licenciatura nas várias áreas das terapêuticas não convencionais), já se prevê a figura do especialista de reconhecida experiência e competência profissional como alguém que pode integrar o corpo docente de um ciclo de estudo, lecionando no mesmo.

A solução do reconhecimento de especialistas na área das TNC que, de forma transitória, possa integrar o corpo docente e lecionar nos ciclos de estudo conducente a licenciatura é, por isso, uma solução que se afigura realista e possível, garantindo a existência destes ciclos de estudo sem comprometer, de forma alguma, a sua qualidade formativa.

No que concerne às TNC, o seu recente reconhecimento legal, o seu processo de regulamentação ainda em andamento e a inexistência de ciclos de estudo que confiram grau académico faz com que a maior parte dos seus especialistas não possuam habilitações de nível superior, ainda que acumulem milhares de horas de formação e anos de experiência profissional e formativa. Acresce a isto o facto de ser uma área nova no ensino superior e, por isso, não existirem docentes especialistas nestas áreas das terapêuticas não convencionais.

Pretende-se, por isso, com a presente iniciativa legislativa, e mediante alteração à Lei n.º 71/2013, de 2 de setembro, introduzir uma norma transitória que confira certeza, qualidade e segurança ao processo de acreditação dos ciclos de estudos nas TNC, permitindo considerar-se “especialista de reconhecida experiência e competência profissional” aquele que tiver obtido cédula profissional emitida pela ACSS, bem como aquele que assim for considerado pelo órgão técnico-científico da instituição de ensino superior onde se ministre ensino conferente de grau na área de estudo da Saúde e depois de avaliação curricular documentada onde se comprove a sua formação e experiência profissional.

Assim, nos termos constitucionais e regimentais aplicáveis, as Deputadas e os Deputados do Bloco de Esquerda, apresentam o seguinte Projeto de Lei:

Artigo 1.º

Objeto

A presente lei procede à segunda alteração à Lei n.º 71/2013, de 2 de setembro, reconhecendo e definindo a figura de especialista, para efeito de integração em corpo docente e lecionação nos ciclos de estudos conducentes a grau de licenciatura em terapêuticas não convencionais.

Artigo 2.º

Alteração à Lei n.º 71/2013, de 2 de setembro

O artigo 19.º da Lei n.º 71/2013, de 2 de setembro, passa a ter a seguinte redação:

«Artigo 19.º

[…]

  1. (…)
  2. (…)
  3. (…)
  4. (…)
  5. (…)
  6. (…)
  7. Para efeito de integração em corpo docente e lecionação nos ciclos de estudos previstos no n.º 1 do artigo 5.º, e por um período de cinco anos a partir da data de entrada em vigor da presente lei, considera-se especialista quem:

a) Seja detentor de cédula profissional emitida pela ACSS, nos termos da alínea a) do n.º 2 do presente artigo e, cumulativamente, tenha uma prática profissional na área de pelo menos 10 anos, 5 dos quais nos últimos 10 anos;

b) Possua currículo profissional de qualidade e relevância comprovadas, devidamente confirmado e aceite pelo órgão científico ou técnico-científico do estabelecimento de ensino superior autorizado a conferir o grau de licenciado em, pelo menos, um ciclo de estudos na área da saúde.

  1. (anterior n.º 7)
  2. (anterior n.º 8)
  3. (anterior n.º 9)».

Artigo 3.º

Entrada em vigor

A presente lei entra em vigor no dia seguinte à sua publicação.

Assembleia da República, 20 de outubro de 2017

As Deputadas e os Deputados do Bloco de Esquerda

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