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Instabilidade financeira e laboral no grupo Global Media

Tem sido noticiada a situação do grupo Global Media, que detém o Jornal de Notícias, o Diário de Notícias, a TSF, O Jogo, entre outros órgãos de comunicação social. A instabilidade na administração do grupo, os atrasos salariais e a iminência de despedimentos é uma constante, tendo sido noticiada no início de 2019 a preparação de um total de 200 rescisões, correspondendo a um corte de quase 30% nos efetivos do grupo.

Em julho passado, foi confirmado o despedimento de 25 funcionários. Recorde-se que, em 2014, uma reestruturação do grupo levou ao despedimento de 160 trabalhadores, 64 dos quais jornalistas. Ao mesmo tempo, vão sendo conhecidas rescisões a conta-gotas de entre o quadro de jornalistas do grupo. A situação motivou expressões de preocupação de diversas entidades, entre elas o Sindicato dos Jornalistas e o Presidente da República.

Já em novembro, de acordo com o comunicado divulgado no dia 16 pelo Sindicato dos Jornalistas, o plenário dos trabalhadores da TSF deixou em ponderação o recurso à greve se, no prazo de dez dias, não forem prestados esclarecimentos da parte da administração do grupo Global Media, que os tem recusado reiteradamente.

Segundo o comunicado, “desde o anúncio da nova reestruturação [do grupo Global Media], a instabilidade na TSF tem sido grande, agravada por atrasos no pagamento de salários a trabalhadores efetivos e colaboradores”. Os trabalhadores daquela rádio querem “um esclarecimento claro e cabal de quem tem poder de decisão dentro da empresa sobre a reestruturação anunciada, incluindo rescisões por mútuo acordo e um eventual despedimento coletivo, número de trabalhadores a dispensar, critérios para esses despedimentos e datas para que esta reestruturação avance”.

A preocupação com as ameaças ao emprego e aos direitos dos trabalhadores do grupo Global Media vem a par da consideração dos graves impactos que a crise deste grupo já tem (e pode vir a ter) na comunicação social portuguesa. É sabido que, nas empresas de comunicação social, o caso do grupo Global Media não é único nem raro, antes se verificando situações de instabilidade, alto endividamento e redução de efetivos noutras empresas de referência do setor.

No caso do Global Media, esta crise tem sido reconhecida pela administração, mas as suas iniciativas conhecidas não são tranquilizadoras quanto à estratégia dos proprietários do grupo. Os principais acionistas são a KNJ Global Holdings Limited (30%) - do empresário macaense Kevin Ho - e José Pedro Carvalho Reis Soeiro (19,25%) - parceiro de negócios de ex-responsáveis políticos angolanos. O Presidente do Conselho de Administração é o advogado Daniel Proença de Carvalho.

Com efeito, à entrada da KNJ como principal acionista do grupo, o objetivo anunciado era o de investir na internacionalização e consolidação do grupo de media. Mas rapidamente se iniciou um conjunto de iniciativas em torno dos ativos imobiliários do grupo - da venda do histórico edifício do DN na Avenida Liberdade (que passará a albergar 34 apartamentos de luxo) até à sede do JN, no Porto, destinada a uma hotel de 213 quartos da multinacional Marriott. Neste caso, o edifício foi adquirido por 9,5 milhões de euros por uma companhia detida pelos próprios gestores do grupo KNJ, maior acionista do grupo vendedor.

Analisando o Relatório e Contas Consolidadas de 2018 do Global Media, constata-se que, desde 2017, multiplicam-se operações de garantia de créditos e constituição de penhor sobre as marcas Diário de Notícias, Jornal de Notícias, O Jogo e Global Notícias, bem como ações e quotas da Rádio Notícias, Açormédia, Naveprinter, Empresa Gráfica Funchalense, VASP, Agência Lusa, Notícias Direct, Jornal do Fundão Editora e Empresa do Diário de Notícias.

Em paralelo, ainda segundo o Relatório de 2018, os acionistas criaram duas empresas - Tagus Media Europe e Tagus Media Américas -, com sede respetivamente nos offshores de Malta e Curaçao. Não é possível no Relatório conhecer a razão para a criação destas empresas offshore, nem é possível identificar o destino da liquidez criada pelas operações acima referidas.

No momento em que, por iniciativa do Presidente da República e de numerosos agentes do setor, se desenvolve um importante debate público acerca do futuro da comunicação social e do jornalismo, incluindo as formas de intervenção pública de promoção da pluralidade e do rigor nos media, designadamente sob a forma de apoios económicos de vário tipo, e estando em causa um conjunto de órgãos de comunicação centrais na comunicação social em Portugal, o Bloco de Esquerda questiona o governo sobre a situação do grupo Global Media

Atendendo ao exposto, e ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda vem por este meio dirigir ao Governo, através da Ministra da Cultura, as seguintes perguntas:

1- Está o governo informado acerca do plano da administração do Global Media Group para a estabilização da situação financeira e laboral nas empresas do grupo?

2- Que intervenção teve ou pretende ter o governo para assegurar a boa gestão, a defesa dos postos de trabalho e a sustentabilidade de órgãos de comunicação social com a importância, histórica e atual, dos detidos pelo grupo Global Media?
 

AnexoTamanho
pergunta_instabilidade_financeira_e_laboral_no_grupo_global_media.pdf181.99 KB