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"O arco da governação foi substituído pelo arco da Constituição"

No final da sua intervenção, o líder parlamentar do Bloco de Esquerda, Pedro Filipe Soares, deixou “ao primeiro-ministro que deixará de ser”, um conselho: “diga ao seu futuro eu que não seja piegas, que saia da sua zona de conforto

Sublinhando que as eleições legislativas não elegem primeiros ministros nem governos mas sim deputados e que, “quando o PSD e o CDS-PP perderam mais de 750 mil votos perderam também 25 deputados, passando de 132 deputados, uma maioria absoluta confortável no Parlamento, para 107 deputados e deputadas”, Pedro Filipe Soares afirmou que “percebemos assim a inquietação” da direita.

PSD e CDS não conhecem sequer o mínimo da sua história

Referindo-se às declarações de Passos Coelho sobre a existência de um “golpe irreversível nas regras e convenções da nossa democracia” e às intervenções oriundas das bancadas do PSD e CDS, que, esta segunda-feira, falaram em “usurpação eleitoral” e “falta de humildade democrática”, o líder parlamentar bloquista destacou que “aqueles que fazem estas acusações não conhecem sequer o mínimo da sua história enquanto grupos parlamentares”.

O dirigente do Bloco lembrou que, em 1999, quando o PS conquistou 115 deputados, o PSD apresentou uma moção de rejeição argumentando que o Partido Socialista tinha perdido as eleições e que tinha sido incapaz de garantir uma maioria social de apoio, merecendo, por isso, ser rejeitado.

Segundo Pedro Filipe Soares, é esta a demagogia de PSD e CDS que “só lembram as tradições quando lhes convém e que afinal se reconhece que para eles a história é a sua memória e a sua memória é muito seletiva”.

“É esta a realidade de quem está desesperado porque, de facto, perdeu as eleições”, frisou.

Em resposta ao deputado do PSD António Leitão Amaro, Pedro Filipe Soares lamentou que a direita não tenha feito um mea culpa, admitindo que estiveram no governo "a aldrabar o país" e que "toda a sua narrativa sobre a tradição e a legitimidade de governação é mentira".

"O arco da governação foi substituído pelo arco da Constituição"

O dirigente bloquista afirmou ainda que PSD e CDS-PP não dizem bem ao que vêm nem reconhecem que a austeridade que defendem foi a derrotada nas eleições.

“Vejamos aquele debate que a direita não quer fazer, o que é que aconteceu nas eleições passadas e ao longo de quatro anos e como é possível que agora uma alternativa se esteja a levantar: é que aquele arco que tanto embandeiram, o tal arco da governação, foi suplantado pelo arco da Constituição, aquela que não reconheceram durante quatro anos e contra a qual governaram continuadamente”, avançou Pedro Filipe Soares.

“Todos e todas nós sabemos que se há um texto unificador de um país é a Constituição” acrescentou, defendendo que “extremistas são aqueles que, apoiando-se num governo e numa maioria parlamentar, governam contra esse regime instituído, contra essa palavra de um país que é a Constituição”.

Para o líder parlamentar do Bloco, “não existem constituições de primeira e de segunda na Europa”.

“A Constituição alemã não é mais importante do que a Constituição portuguesa e é isso mesmo que afirma a alternativa que se está a constituir”, destacou.

Referindo que a austeridade, que foi “o programa do governo durante quatro anos e é ainda o programa do governo para os próximos quatro anos” é “ideológica”, e que a mesma se traduz na concentração das fortunas, aumento da desigualdade e destruição da solidariedade no nosso país, Pedro Filipe Soares frisou que “o futuro que passa por esta Assembleia, que passa por este país é quebrar o ciclo de empobrecimento que PSD e CDS querem continuar”.

“A única maioria que se expressa no parlamento é a que tem a legitimidade dos votos de um povo que, votando em deputados e deputados, retirou a maioria a PSD e CDS, exigindo que eles não continuem no Governo”, afirmou ainda o dirigente bloquista durante a sua intervenção.

Acusando PSD e CDS de "não conviverem bem com resultado eleitoral", Pedro Filipe Soares afirmou que "a democracia se exprime pela eleição dos deputadas de deputados nesta Assembleia.

"É essa democracia que está a ser hoje aqui construída, aquela que a Constituição prevê e já agora, aquela que foi constituída na base de uma aliança muito melhor que esta auto proclamada equipa da governação. É o arco da Constituição, aquele onde até o PSD já esteve um dia, mas já se esqueceu há muito tempo", avançou.

Na antecipação da rejeição do governo, Pedro Filipe Soares deixou “ao primeiro ministro que deixará de ser, um simples e humilde conselho: diga ao seu futuro eu que não seja piegas, que saia da sua zona de conforto”.